As listas de colocados na 1ª fase do concurso de acesso ao Ensino Superior mostram que 45 592 estudantes já têm lugar nas universidades, e 86% numa das primeiras três opções. Serão as escolhas certas? Especialistas defendem que falta informação sobre empregabilidade.
No final do ano passado, do total de desempregados que se licenciaram entre 1999 e 2009 e que estavam inscritos nos centros de emprego, 17,5% eram da área de ciências empresariais. O curso de Gestão do ISEG era um dos que tinha a maior fatia, com 110 registos em 7306, segundo o último balanço do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), publicado em Abril. Este ano esta licenciatura esgotou as 205 vagas, e o último colocado entrou com média de 15,1.
Na área do Direito, com 3,4% do total de licenciados no desemprego, as faculdades de Lisboa e Coimbra somavam o maior número de antigos alunos sem emprego: 390 de um total de 1469.
Nesta 1ª fase de colocações ficaram ocupadas as 780 vagas abertas só para estes dois cursos, com a média mínima de 14,8 em Coimbra e 14,18 em Lisboa. O cenário é semelhante na saúde: as licenciaturas na Escola Superior de Enfermagem do Porto e de Coimbra tinham os piores números do desemprego na área, com um total de 222 desempregados. Este ano, as 590 vagas que oferecem também já estão ocupadas. Nas licenciaturas de Arquitectura na Universidade Técnica de Lisboa, Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes ou Economia e História na Universidade do Porto o balanço da empregabilidade não era melhor, estando entre os cursos nas suas áreas com mais desempregados. Em todos as vagas foram ocupadas, com médias de 17,1 no caso de Design da Comunicação ou 16,6 para Arquitectura.
Formação mais ampla Para o matemático Nuno Crato, falta em geral informação sobre a empregabilidade dos cursos, e seria bom que os estudantes procurassem essa informação. Mas o problema não pode ser exagerado, diz ao i. "Ninguém gosta de ficar no desemprego e não tem sentido orientar mal os dinheiros públicos. Mas creio que o problema está um pouco exagerado. Um curso superior hoje não pode ser encarado como o era há algumas décadas - já não é a porta directa para a profissão exacta que se queria no momento de escolha", sublinha.
Para o investigador, essa mudança de mentalidade é uma das mais-valias do processo de Bolonha. "O primeiro ciclo universitário deve dar uma formação geral que o estudante pode aproveitar para continuar os estudos noutras áreas." Um conselho? "Estude-se algo amplo, mas com conteúdo. Estude-se história, ou matemática, ou português, ou direito, e pense-se que o futuro tem muitas surpresas. Mas não se estudem cursos tão especializados ou tão genéricos e com tão pouco conteúdo básico que com eles poucas perspectivas se abram ou neles pouco se aprenda. Não há mal nenhum em estudar história e ser-se guia turístico, ou tirar o curso de línguas modernas e ser-se jornalista, tal como não há mal nenhum em estudar direito e ser-se assessor de administração ou estudar arquitectura e vir a trabalhar na edição de livros.
"Pedro Telhado Pereira, especialista em Economia da Educação da Universidade da Madeira, acredita que intervir em áreas mais lotadas como Direito ou Enfermagem não seria solução. "Não há excesso se se preencherem as vagas. São competências que as pessoas tiram para a vida. Não vejo que tentar controlar seja a solução, houve países que o fizeram, veja-se a União Soviética, e foi o caos. Hoje em dia ninguém vai para direito sem saber que a vida está má, só se não ler os jornais." E há mais, diz Pedro Telhado Pereira. "Neste momento estamos em crise, mas é dificil ter uma percepção do que vai acontecer daqui a dez ou 15 anos."
Segundo as estimativas do MCTES, este ano lectivo são esperados 118 mil novos alunos no ensino superior, mais 20 500 do que no ano passado. A formação de adultos, no primeiros anos pós-Bolonha, é uma das áreas que cresce. As licenciaturas representam já menos do total de novos inscritos, com os mestrados profissionais a disparar 47% em relação a 2009/2010. Pós-graduações e mestrados representam quase 49 mil estuantes, 40% dos inscritos, se se incluir os estudantes que transitam para o mestrado integrado.

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