Em minha casa isso aconteceu esta semana: um dos meus filhos disse-me que o
IVA não devia aumentar porque assim as coisas ficam mais caras e é pior para toda a gente (eu sempre achei que os meus filhos deviam votar desde o dia em que completaram os quatro anos, mas quando ele teve esta saída, tive a certeza absoluta). Perguntei-lhe, sem conseguir disfarçar o orgulho pela sabedoria em matéria de política fiscal deste meu filho, de onde tinha bebido tal saber.
"Da televisão, desde que nos proibiram de ver televisão durante a semana e só vemos notícias, que só oiço falar de crise, IVA, Sócrates e FMI." Feita a introdução, resolvi investir no tema. "E então?" "Então, agora que vai haver eleições, o Sócrates vai deixar de mandar e vai devolver o dinheiro todo." E se as pessoas votarem nele outra vez? "Ele não quer, ele demitiu-se, por isso não quer ser mais primeiro-ministro." (Um orgulho, eu sei, é meu filho.)
O irmão, sempre mais dramático, murmurou assustado: "Mãe, Portugal vai morrer?" Gerou-se uma discussão: "Não, os países não morrem, podem é ficar como a Líbia", respondeu o primeiro. A conversa durou algum tempo e eu ia moderando uma discussão de política entre pessoas que ainda têm medo do escuro, não sabem ler ou descascar uma maçã, mas sabem da existência
da Líbia.
Esta pequena demonstração revelou-me que as consciências políticas despertam muito, muito cedo: basta que se sintonizem os canais certos na televisão e a democracia está salva.

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