16 Mai 2012

Misturar medicamentos com produtos naturais pode ser perigoso

Portugal vai ter observatório inédito sobre interacção entre medicamentos e produtos naturais.

por Marta F. Reis

Responsável pelo projecto na Universidade de Coimbra estima que 20% das idas às urgências possam ser causadas por interacções perigosas.

Era uma operação com anestesia geral. A doente levou o anestésico mas não informou o médico de que estava a tomar extracto de aloé vera. Quando os dois produtos são combinados, o risco de hemorragia aumenta exponencialmente. A intervenção simples foi quase fatal. "As pessoas hoje têm noção de que não se mistura medicação com álcool, mas não existe informação para os produtos naturais que começámos a tomar e a misturar com os medicamentos nas últimas duas décadas", explica ao i Maria da Graça Campos. A investigadora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra vai coordenar o novo Observatório de Interacções Planta-Medicamento, um projecto inédito a nível internacional, que nas próximas semanas vai começar a ser divulgado através dos meios de comunicação.

O objectivo é construir um registo nacional de todas as reacções adversas que resultem da interacção entre medicamentos e produtos naturais e informar a população dos riscos. "Só temos conhecimento dos acidentes mais graves que são descritos em algumas publicações científicas", diz a investigadora, alertando para a necessidade de mais estudos nesta área face ao aumento do consumo de produtos naturais, entre eles suplementos e dietéticos. Apesar de não haver dados nacionais sobre os acidentes provocados por interacção, Maria da Graça Campos acredita que 20% das idas às urgências dos hospitais poderão estar ligadas a este problema.

"Dentro de um ano teremos uma percepção muito melhor do número de acidentes. Quando houver mais informação, acreditamos que vamos ter menos pessoas nos hospitais e reduzir não só os acidentes como os custos para o Serviço Nacional de Saúde", diz. Até ao momento o observatório recebeu oito casos para investigação, sobretudo de suspeitas de interacções em serviços de oncologia. A especialista adianta que, para os doentes que estão a fazer quimioterapia, a toma de produtos naturais, quando não acompanhada pelos médicos, pode dar origem a situações graves.

Um dos casos descritos na literatura relaciona a toma de chá de hipericão - também conhecido como erva de São João e associado ao tratamento de depressões - com a inibição do metabolismo dos doentes, o que faz com que no caso dos medicamentos antineoplásicos, que têm de ser metabolizados para ter efeito, o tratamento fique comprometido. Para Maria da Graça Campos não se trata de controlar a qualidade dos produtos naturais, mas assegurar que a informação chega à população. "Alguns ainda pensam que tomar extracto de alho é o mesmo que estar a comer o alimento. O alho usado como anticoagulante oral é uma terapêutica que pode provocar situações muito graves se tomada em conjunto com medicação."

Nos próximos dias deverá ficar online o site do projecto e entrará em funcionamento uma linha telefónica gratuita, através da qual doentes e profissionais poderão reportar efeitos adversos que suspeitem estar ligados a interacções. Os inves- tigadores tiveram financiamento comunitário na ordem dos 150 mil euros e aguardam ainda os resultados de um concurso da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Em Junho, a coordenadora vai dar a conhecer a iniciativa num congresso ibero-americano de toxicologia. O objectivo é alargar o registo de interacções à comunidade científica internacional.

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